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| Escrito por Marco Antonio Villa |
| Qua, 02 de Abril de 2014 09:11 |
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Durante a ditadura, a oposição de
esquerda transformou a experiência dos países socialistas em referência
de democracia. A ditadura do proletariado foi exaltada como o ápice da
liberdade humana e serviu como contraponto ao regime militar. A
falácia tinha uma longa história. Desde os anos 1930 brasileiros
escreveram libelos em defesa do sistema que libertava o homem da
opressão capitalista.
Tudo começou com URSS, Um Novo Mundo,
de Caio Prado Júnior, publicado em 1934, resultado de uma viagem de
dois meses do autor pela União Soviética. Resolveu escrevê-lo, segundo
informa na apresentação, devido ao sucesso das palestras que teria
feito em São Paulo descrevendo a viagem. À época já se sabia do
massacre de milhões de camponeses (a coletivização forçada do campo,
1929-1933) e a repressão a todas os não bolcheviques.
Prado Júnior justificou a violência, que
segundo ele “está nas mãos das classes mais democráticas, a começar
pelo proletariado, que delas precisam para destruir a sociedade
burguesa e construir a sociedade socialista”. A feroz ditadura foi
assim retratada: “O regime soviético representa a mais perfeita
comunhão de governados e governantes”. O autor regressou à União
Soviética 27 anos depois. Publicou seu relato com o título O Mundo do Socialismo. Logo de início escreveu que estava “convencido dessa transformação (socialista), e que a humanidade toda marcha para ela”.
Em 1960, Caio Prado não poderia ignorar a
repressão soviética. A invasão da Hungria e os campos de concentração
stalinistas estavam na memória. Mas o historiador exaltava “o que
ocorre no terreno da liberdade de expressão do pensamento, oral e
escrito”, acrescentando: “Nada há nos países capitalistas que mesmo de
longe se compare com o que a respeito ocorre na União Soviética”. E
continua escamoteando a ditadura: “Os aparelhos especiais de repressão
interna desapareceram por completo. Tem-se neles a mais total liberdade
de movimentos, e não há sinais de restrições além das ordinárias e
normais que se encontram em qualquer outro lugar.”
Seguindo pelo mesmo caminho está Jorge
Amado, Prêmio Stalin da Paz de 1951. Isso mesmo: o tirano que ordenou o
massacre de milhões de soviéticos dava seu nome a um prêmio “da paz”.
Antes de visitar a União Soviética e publicar um livro relatando as
maravilhas do socialismo – o que ocorreu em 1951 -, Amado escreveu uma
laudatória biografia de Luís Carlos Prestes. A União Soviética foi
retratada da seguinte forma: “Pátria dos trabalhadores do mundo, pátria
da ciência, da arte, da cultura, da beleza e da liberdade. Pátria da
justiça humana, sonho dos poetas que os operários e os camponeses
fizeram realidade magnífica”.
A partir dos anos 1970, o foco foi
saindo da União Soviética e se dirigindo a outros países socialistas.
Em parte devido aos diversos rachas na esquerda brasileira. Cada
agrupamento foi escolhendo a sua “referência”, o país-modelo. O Partido
Comunista do Brasil (PCdoB) optou pela Albânia. O país mais atrasado
da Europa virou a meca dos antigos maoistas, como pode ser visto no
livro O Socialismo na Albânia, de Jaime Sautchuk. O jornalista
visitou o país e não viu nenhuma repressão. Apresentou um retrato
róseo. Ao visitar um apartamento escolhido pelo governo, notou que não
havia gás de cozinha. O fogão funcionava graças à lenha ou ao carvão.
Isso foi registrado como algo absolutamente natural.
O culto da personalidade de Enver Hoxha,
o tirano albanês, segundo Sautchuk, não era incentivado pelo governo.
Era de forma natural que a divinização do líder começava nos jardins de
infância onde era chamado de “titio Enver”. As condenações à morte de
dirigentes que se opuseram ao ditador foram justificadas por razões de
Estado. Assim como a censura à imprensa.
Com o desgaste dos modelos soviético, chinês e albanês, Cuba passou a ocupar o lugar. Teve papel central neste processo o livro A Ilha,
do jornalista Fernando Morais, que visitou o país em 1977. Quando
perguntado sobre os presos políticos, o ditador Fidel Castro respondeu
que “deve haver uns 2 mil ou 3 mil”. Tudo isso foi dito naturalmente ─ e
aceito pelo entrevistador.
Um dos piores momentos do livro é quando
Morais perguntou para um jornalista se em Cuba existia liberdade de
imprensa. A resposta foi uma gargalhada: “Claro que não. Liberdade de
imprensa é apenas um eufemismo burguês”. Outro jornalista completou:
“Liberdade de imprensa para atacar um governo voltado para o
proletariado? Isso nós não temos. E nos orgulhamos muito de não ter”. O
silêncio de Morais, para o leitor, é sinal de concordância. O pior é
que vivíamos sob o tacão da censura.
O mais estranho é que essa literatura
era consumida como um instrumento de combate do regime militar. Causa
perplexidade como os valores democráticos resistiram aos golpes do
poder (a direita) e de seus opositores (a esquerda).
Fonte: Veja.com
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Tudo começou com URSS, Um Novo Mundo,
de Caio Prado Júnior, publicado em 1934, resultado de uma viagem de
dois meses do autor pela União Soviética. Resolveu escrevê-lo, segundo
informa na apresentação, devido ao sucesso das palestras que teria
feito em São Paulo descrevendo a viagem. À época já se sabia do
massacre de milhões de camponeses (a coletivização forçada do campo,
1929-1933) e a repressão a todas os não bolcheviques.
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