terça-feira, 24 de junho de 2014

DILMA NO BANCO


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Escrito por Ruth de Aquino   
Seg, 16 de Junho de 2014 14:00
Por três vezes, a multidão gritou gol, por quatro vezes mandou Dilma Rousseff tomar no c... Caía por terra o esquema oficial para blindá-la. De pouco adiantou entrar no Itaquerão quase clandestina. Dilma chegou em comboio por uma garagem. Subiu em elevador privativo. De nada adiantou evitar pronunciamento e quebrar a tradição de Copas do Mundo. Não se anunciou sua presença. Seu nome não foi citado. A imagem de Dilma no telão bastou para detonar o coro ofensivo. Pior que as vaias do ano passado. O que sentiu a herdeira do ausente Lula? Em seus sonhos, a estreia da Copa no Brasil seria sua consagração e do Partido dos Trabalhadores (PT). O que deu errado?
O primeiro gol contra não foi do Marcelo. Foi do técnico Lula. Há quatro anos, ele convocou como artilheira seu poste querido, inexperiente no gramado político, sem talento para driblar adversidades, sem criatividade para virar um placar, sem carisma para liderar companheiros, sem visão de jogo para lançamentos longos, sem precisão nos cruzamentos, sem vocação para trabalho de equipe. Uma capitã sem a generosidade do passe, sem a humildade da autocrítica, sem o brilho que encanta, sem sorriso, sem suor, sem humor. Dilma foi imposta por Lula até a aliados relutantes.

E, agora, o ex-presidente, corintiano roxo, que pontuou seus dois mandatos com metáforas futebolísticas, se viu coagido a  não aparecer no Itaquerão em dia de gala. Ele, que articulou a construção do estádio para sediar a abertura do Mundial, viu o jogo no seu apartamento em São Bernardo, no ABC paulista. Medo de levar rebarba?

O insulto a Dilma foi vergonhoso – mais prejudicial a sua imagem que qualquer manifestação de black blocs ou grevistas do lado de fora. Por ser chulo, o coro também revelou a falta de compostura que acomete o Brasil. Evito cascas de banana sexistas, do tipo “não se faz isso com uma presidente mulher”. Se o presidente fosse homem, sentiria vergonha do mesmo jeito. Sabemos que o estádio é uma arena que convive com palavrões e xingamentos em todos os idiomas. Mesmo assim, gritar “ê, Dilma, vai tomar no c...” depõe contra os torcedores.
A imagem dela no telão bastou para detonar o coro ofensivo. Era para ser a apoteose do PT. O que falhou?
Quem mandou não investir direito em educação? Presidentes eleitos democraticamente já levaram ovo, tomate, já foram fisicamente agredidos em eventos de rua. Mas uma estreia de Copa tem rituais que devem ser observados. Uma vaia a Dilma teria sido mais elegante e mais eficaz.

Esse roteiro vulgar não foi obra e destempero apenas da torcida. Lulices e dilmadas contribuíram, na última década, para desiludir muitos eleitores que confiavam cegamente na seleção do PT. Dilma não foi a melhor escolha de Lula. Fominha – segundo a base aliada –, a capitã do time está em queda e cada vez mais isolada. A divisão do PMDB – time mais oportunista de todos, sempre! – acentua a rejeição ao estilo Dilma. Até Lula critica sua política econômica e sua comunicação, ao dizer que ela precisava ter sido mais “convincente” ao divulgar a Copa no Brasil. De que adianta ser “convincente”, se pouco mais da metade do que o Brasil prometeu fazer para a Copa ficou pronto?

Dois dias antes da abertura, Dilma disse, em cadeia de rádio e TV, que “os pessimistas já entraram perdendo”. Celebrou os estádios “prontos” e “a determinação do povo brasileiro”. Falou uma verdade: “A Seleção está acima de governos, partidos e interesses de qualquer grupo”. Vangloriou-se de exageros. Afirmou que, em uma década, 36 milhões de brasileiros foram retirados da miséria. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ligado ao governo federal, revelou que 8,4 milhões de pessoas deixaram de viver na miséria, de 2002 a 2012.

O brasileiro parou de acreditar nos índices oficiais de inflação, parou de confiar nas promessas. O pessimismo com a economia é recorde. A maioria acha que o Mundial traz mais prejuízo do que benefícios ao país. O brasileiro começa a recusar clichês. Mulata, índio, improviso, jeitinho, caipirinha, samba, nada é vacina contra o desencanto. Nem os quadris opulentos de Claudinha Leitte e J-Lo compensavam o artificialismo do som em playback, na abertura da Copa das Copas.

A nova pátria rejeita patriotadas e dá seu recado aos governantes: o futebol deixou de ser o ópio do povo. Uma fatia expressiva de brasileiros não confunde mais gol e voto. Temos um país mais maduro, que separa chuteiras de bandeiras, é capaz de cantar o hino a capela, torcer pelo Brasil e – por isso mesmo – protestar por direitos básicos. Saúde e educação, segurança, transporte, saneamento, fim da corrupção e bom uso de gastos públicos. Para quem dizia #naovaitercopa, o melhor foi perceber que #vaitercopa e #vaitereleicao, tudo junto. Que ganhem os melhores, sem apitaço, sem roubo, sem favorecimento e sem violência.

Fonte: Época

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VOTAR NULO, EM BRANCO OU SE ABSTER SÃO DECISÕES QUE SÓ FAVORECEM OS POLÍTICOS CORRUPTOS


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Escrito por Carlos Newton   
Seg, 16 de Junho de 2014 08:54
No desespero com a progressiva decadência dos três poderes da República, muitos brasileiros defendem uma renovação radical da classe política. Uns pretendem invalidar as eleições através do voto nulo ou em branco, outros defendem a abstenção e há também quem sugira que não se reeleja nenhum político, votando-se apenas em quem jamais disputou eleição.

Entende-se perfeitamente a decepção desses brasileiros. Realmente, é muito duro suportar tanta falta de espírito público, tanta corrupção e tanta impunidade, em meio à progressiva segregação de grande parte da população brasileira, que necessita dos serviços públicos de saúde, educação, saneamento e transportes, mas continua eternamente desassistida.
Veja-se o caso da saúde pública, por exemplo. Os governantes conseguiram dividir os brasileiros em duas classes – os que têm planos de saúde e os que não têm. Mas há, ainda, mais uma subclasse, formada pelos segurados de planos de saúde que não funcionam e fazem com que o suposto beneficiário acabe tendo de recorrer aos hospitais públicos.
Na educação, formaram-se as mesmas classes, dividindo os brasileiros entre os que têm escola particular e os que necessitam da escola pública, havendo também a subclasse dos que se sacrificam para colocar os filhos em colégios particulares que também quase nada ensinam.
REALIDADE MASSACRANTE
É diante desta realidade incontestável e massacrante que muitos brasileiros perdem a confiança nas eleições, por entenderem que votar não significa nada. É verdade, muitas eleições não mudam nada, mas não se pode aceitar esse posicionamento autodestrutivo de brasileiros conscientes, porque a eleição é nossa única arma.
Se os brasileiros conscientes desistem de votar, os únicos beneficiados são os políticos profissionais, que já têm seus feudos. Quando votamos nulo ou em branco, e quando deixamos de votar, os corruptos ficam cada vez mais fortalecidos. Além disso, nenhuma eleição é invalidada por votos nulos, em branco ou abstenção massiva. Se houver apenas um voto, ele será válido e o resultado da eleição estará confirmado. Na forma da lei, a nulidade da votação somente ocorre em casos muito especiais, com ocorrência de fraude ou erro essencial de organização.
Por tudo isso, fica claro que os brasileiros conscientes não podem se omitir nas eleições. Pelo contrário, precisam participar e influir para que os melhores candidatos (ou os “menos piores”, como diz o comentarista Théo Fernandes) sejam eleitos. Pensem nisso.

Fonte: Tribuna da Internet

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segunda-feira, 23 de junho de 2014

THOMAS PIKETTY FALA DE CAPITAL SEM JAMAIS TER LIDO "O CAPITAL"


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Escrito por Davi Harvey   
Seg, 16 de Junho de 2014 08:54
Thomas Piketty escreveu um livro intitulado Capital que causou furor. Advoga a taxação progressiva e um imposto sobre a riqueza global como único modo para conter a tendência na direção de criar-se uma forma “patrimonial” de capitalismo, marcado por – como diz ele – desigualdades “aterrorizantes” de riqueza e renda. Também documenta, em detalhes dolorosíssimos e difíceis de retrucar, o modo como a desigualdade social de riqueza e de renda evoluiu ao longo dos dois últimos séculos, com especial atenção ao papel da riqueza.

Tomas Piketty também destrói a visão amplamente disseminada segundo a qual o capitalismo de livre mercado distribuiria riqueza e que seria o grande instrumento para defender as liberdades e direitos individuais. O capitalismo de livre-mercado, na ausência de qualquer intervenção de redistribuição pelo Estado, como Piketty mostra, só produz oligarquias antidemocráticas. Essa demonstração gerou crises de apoplexia entre os liberais, como se viu no Wall Street Journal.
O livro tem sido apresentado como substituto do século 21, para obra de mesmo título de Karl Marx, no século 19. Piketty de fato nega que tenha tido tal intenção, o que me parece bem razoável, posto que o seu livro absolutamente não trata de capital. Absolutamente não nos diz por que aconteceu o crash de 2008 nem por que está demorando tanto para tanta gente livrar-se da dupla carga do desemprego prolongado e das milhões de casas perdidas para bancos credores. Tampouco ajuda a compreender por que o crescimento anda tão miserável nos EUA, ao contrário do que se vê na China, nem por que a Europa está aprisionada numa política de austeridade tanto quanto numa economia de estagnação.
AUMENTA A DESIGUALDADE O que Piketty, isso sim, mostra estatisticamente (e muito temos a agradecer a ele e sua equipe pelas estatísticas) é que o capital sempre tendeu, ao longo de toda sua história, a produzir níveis cada vez maiores de desigualdade. Não que seja novidade para muitos de nós. Além do mais, é essa, precisamente, a conclusão teórica a que chega Marx no Volume Um de sua versão de “O Capital”. Piketty sequer percebe a coincidência, o que não chega a surpreender, porque ele já disse inúmeras vezes, em resposta a acusações da imprensa-empresa de direita, de que ele seria um marxista disfarçado, que jamais leu “O Capital”, de Marx.
Piketty reúne muitos dados em apoio a seus argumentos. O que diz das diferenças entre renda e riqueza é útil e persuasório. E defende atentamente os impostos sobre a herança, a taxação progressiva e um imposto sobre a riqueza global na medida do possível (embora, quase com certeza, não seja politicamente viável), como antídotos contra concentração ainda maior de riqueza e poder.
Mas por que ocorre essa tendência na direção de desigualdade sempre crescente ao longo do tempo? Considerados seus dados (temperados com algumas alusões literárias a Jane Austen e Balzac), ele deriva uma lei matemática para explicar o que acontece: a acumulação sempre crescente de riqueza pelos tais famosos 1% (termo popularizado graças ao curso do movimento “Occupy”) deve-se ao simples fato de que a taxa de retorno sobre o capital (r) é sempre maior que a taxa de crescimento da renda (g). Isso, diz Piketty, é e sempre foi “a contradição central” do capital.
PIKETTY NÃO DIZ… Mas uma regularidade estatística dessa ordem dificilmente seria explicação adequada, muito menos viraria lei. Assim sendo, que forças produzem e sustentam tal contradição? Piketty não diz. A lei é a lei e… não se fala mais nisso. Marx obviamente teria atribuído a existência de tal lei ao desequilíbrio de poder entre capital e trabalho. E é explicação que ainda se mantém em pé. O firme declínio da fatia do trabalho na renda nacional desde os anos 70 derivou do declínio do poder político e econômico do trabalho, com o capital mobilizando políticas de tecnologias, de desemprego, de deslocalização e políticas antitrabalho (como as de Margaret Thatcher e Ronald Reagan) para esmagar toda oposição.
Como Alan Budd, conselheiro econômico de Margaret Thatcher confessou em momento de descuido, as políticas anti-inflação dos anos 1980s mostraram-se “excelente modo de aumentar o desemprego; e aumentar o desemprego revelou-se modo altamente desejável para reduzir a força das classes trabalhadoras (…) O que foi ali construído em termos marxistas foi uma crise do capitalismo que recriou um exército de reserva de mão de obra, e permitiu que os capitalistas obtivessem altos lucros desde então“. A disparidade na remuneração entre trabalhadores médios e os altos executivos-gerentes permaneceu em torno de 30:1 em 1970. Hoje já está bem acima de 300:1, e no caso da empresa MacDonalds é superior a 1.200:1.
Mas no Volume 2 de “O Capital” de Marx (que já se sabe que Piketty também não leu, dado que descarta o que ali leria), Marx destacou que a tendência do capital para mandar abaixo os salários chegaria, num certo ponto, a restringir a capacidade de o mercado absorver o que o capital produzisse. Henry Ford identificou esse dilema há muito tempo, quando mandou pagar $5 por dia de oito horas de trabalho aos seus operários, para, disse ele, estimular uma demanda de consumo.
FALTA DE DEMANDA
Muitos disseram que a falta de demanda efetiva levou à Grande Depressão dos anos 30. Foi o que inspirou as políticas expansionistas keynesianas de depois da 2ª Guerra Mundial e resultou em algumas reduções em desigualdades de rendas (embora nem tanto nas da riqueza) em pleno forte crescimento gerado por demanda. Mas essa solução repousava sobre o relativo empoderamento do trabalho e a construção do “estado social” (termo de Piketty) que os impostos progressivos criaram. “Tudo considerado” – Piketty escreve –, “ao longo do período 1932-1980, quase meio século, a mais alta taxa de imposto federal nos EUA foi em média 81%.” E isso de modo algum reduziu o crescimento (mais um dado dos que Piketty reuniu, que desmente crenças da direita).
Ao final dos anos 1960s, já era claro para muitos capitalistas que tinham de fazer alguma coisa contra o excessivo poder do trabalho. Daí a destituição de Keynes, arrancado do panteón dos economistas respeitáveis; a mudança para o pensamento de Milton Friedman que pensa pelo lado da oferta; a cruzada para estabilizar, quando não para reduzir impostos, para desconstruir o estado social e para disciplinar as forças do trabalho. Depois de 1980, os impostos caíram e os ganhos de capital – fonte importante de renda para os ultra ricos – foram taxados em patamar muito inferior nos EUA, o que aumentou muito o fluxo da riqueza na direção do 1% de cima. Mas o impacto sobre o crescimento, como Piketty mostra, foi desprezível. O tal “efeito contaminação” dos benefícios dos ricos para o resto (outra das crenças preferidas da direita) não funciona. Nada disso foi ditado por qualquer lei matemática: tudo aí foi sempre questão política.
Mas então o timão fez volta completa e a pergunta passou a ser: que fim levou a demanda? Piketty ignora sistematicamente essa pergunta.
OS ANOS 90
Os anos 1990s fugiram de ter de responder, com vasta expansão do crédito, incluindo a extensão do financiamento de hipotecas na direção dos mercados de papeis podres. Mas a bolha resultante estava condenada a explodir, como explodiu, em 2007-8, levando abaixo os Lehman Brothers e todo o sistema de crédito. Mas os lucros e a maior concentração de riqueza privada recuperaram-se muito rapidamente depois de 2009, enquanto tudo e todos continuaram a ir mal e cada vez mais mal. As taxas de lucro dos negócios são hoje tão altas como sempre foram nos EUA. Os negócios estão sentados sobre montes de dinheiro e recusam-se a gastá-lo porque o mercado não mostra condições robustas. A formulação, por Piketty, da lei matemática disfarça, mais do que revela, a política de classes envolvida. Como Warren Buffett observou, “claro que há guerra de classe, e é a minha classe, os ricos, que fazem a guerra; e estamos ganhando.” Uma medida chave da vitória deles é a crescente disparidade de riqueza e renda do 1% do topo, em relação a todos as demais pessoas.
Mas há, contudo, uma dificuldade central com o argumento de Piketty. Ele repousa – no sentido de “ele depende” – de uma definição errada de capital. Capital é um processo, não uma coisa. É um processo de circulação no qual o dinheiro é usado para fazer mais dinheiro quase sempre, mas não exclusivamente, mediante a exploração da força de trabalho.
DEFININDO CAPITAL Piketty define capital como o estoque de todos os bens de propriedade de indivíduos privados, corporações e governos e que podem ser comercializados no mercado não importa se aqueles ativos estão sendo usados ou não. Aí se inclui terra, imóveis e direitos de propriedade intelectual tanto quanto minha coleção de joias e peças de arte. Como determinar o valor de todas essas coisas é um difícil problema técnico para o qual não há solução unanimemente aceita.
Para calcular uma taxa significativa de retorno, “r”, temos de ter algum modo de atribuir valor ao capital inicial. Infelizmente, não há modo de atribuir-lhe valor independentemente do valor dos bens e serviços que por ele é usado para produzir ou por quanto pode ser vendido no mercado. Todo o pensamento econômico neoclássico (que é a base do pensamento de Piketty) é fundado sobre uma tautologia.
A taxa de retorno sobre o capital depende crucialmente da taxa de crescimento, porque para atribuir valor ao capital considera-se o que ele produz, não o que foi usado para produzi-lo. Seu valor é pesadamente influenciado por condições especulativas e pode ser seriamente distorcido pela famosa “exuberância irracional” que Greenspan diagnosticou como típica dos mercados de ações e de moradias. Se se subtrai moradia e propriedades imóveis – para nem falar do valor de coleções de arte dos donos de hedge funds – da definição de capital (e o argumento para incluí-las é bem fraco), nesse caso a explicação de Piketty para as crescentes disparidades em riqueza e renda cairiam de cara no chão, embora as descrições que oferece do estado das desigualdades presentes e passadas ainda se mantivessem em pé.
TAXA DE RETORNO Dinheiro, terra, imóveis e fábricas e equipamento que não estejam sendo usados produtivamente não são capital. Se a taxa de retorno sobre o capital que está sendo usado é alta, então assim é porque uma parte do capital é tirada de circulação e, pode-se dizer, entra em greve. Restringir a oferta de capital a novos investimentos (fenômeno que testemunhamos agora) garante alta taxa de retorno sobre aquele capital que está em circulação.
A criação de tal carência artificial não é só o que as empresas de petróleo fazem para garantir suas altas taxas de retorno: é o que todo e qualquer capital faz se tiver chance. Isso é o que está na base da tendência de a taxa de retorno sobre o capital (não importa como seja definido e medido) sempre exceder a taxa de crescimento da renda. É assim que o capital garante a própria reprodução, não importa o quão desconfortáveis sejam as consequências, para o resto de nós. E é disso que a classe capitalista vive. Há muito de trabalho valiosíssimo nas tabelas de dados que Piketty reuniu. Mas sua explicação de por que as desigualdades e as tendências oligárquicas surgem, essa, é gravemente viciada. Suas propostas, seus remédios para as desigualdades, são ingênuos, se não utópicos. E com certeza absoluta Piketty não produziu modelo operativo para o capital no século 21. Para essa finalidade, ainda precisamos de Marx e permanecemos à espera de equivalente contemporâneo.
David Harvey é um geógrafo marxista britânico, formado na Universidade de Cambridge. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana. Seu artigo foi enviado por Mário Assis.

Fonte: Tribuna da Internet

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DOIS ENIGMAS PARA DILMA


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Escrito por Carlos Chagas   
Ter, 17 de Junho de 2014 09:00
Está a presidente Dilma diante de dois enigmas, um a curto, outro a longo prazo, que precisa decifrar com urgência: que estratégia adotar para reverter a má fase de sua candidatura e, no caso de reeleita, como conduzir seu segundo mandato?

Há divergências entre seus principais colaboradores. Uns entendem que Dilma precisa ser agressiva, bater firme em seus adversários, devolvendo-lhes as ofensas, além de não poupar a imprensa, tida como responsável pela queda em seus índices de preferência. “Chega de ser uma moça educada”, dizem, lembrando que o eleitorado gosta de candidatos sem meias palavras, daqueles que não fogem e até procuram entreveros.
A hora seria de vibrar tacape e borduna no lombo dos tucanos que atacam o governo e o acusam de corrupto, cheio de ladrões, como se ouviu na recente convenção do PSDB. Primeiro mostrando a corrupção no período em que Fernando Henrique foi presidente, depois adotando providências drásticas para punir eventuais responsáveis por mal feitos atuais, como no caso da Petrobras. Mas aproveitando, também, para não poupar governadores tucanos envolvidos em denúncias, como Geraldo Alckmin, de São Paulo.
Aguardar sem reação o início do horário de propaganda eleitoral gratuita pelo rádio e a televisão será perder um tempo precioso, devendo ficar para aquela fase a apresentação das realizações do governo do PT, mas para já o enfrentamento dos que se dedicam a atacá-la. Oportunidades não faltarão, também, para demonstrar a má fé de certos veículos de comunicação ao divulgarem criticas contra a sua administração motivadas por interesses escusos. É preciso identificar e denunciar o que se esconde por trás dessa campanha organizada para erodir a candidata e sua administração.
A segunda decisão que Dilma deve tomar refere-se ao futuro nem tão longínquo assim. Caso garantido o segundo mandato, será preciso equacioná-lo em linhas diversas das atuais. Sem renegar o que vem sendo feito, mas adicionar novos componentes capazes de exprimir evolução nas metas e objetivos. Sacudir a poeira das influências partidárias, por exemplo, na composição do ministério. Ou demonstrar de forma clara que as crises econômicas se resolvem com mais crescimento e menos concessões aos postulados neoliberais. Enfrentar os bolsões retrógrados habitados por certas elites nacionais e estrangeiras.
Em suma, imprimir uma característica mais pessoal e menos sujeita a influências até bem intencionadas, mas responsáveis por travar o desenvolvimento político e ideológico de seu governo. Deixar evidente que os próximos quatro anos não serão um vídeo tape dos atuais. Nos planos social e econômico, equacionar avanços acordes com as necessidades nacionais.
Há quem discorde dessas duas definições, imaginando que a primeira poderá colocar em risco a reeleição, ao invés de promovê-la, e que a segunda causará a ruptura entre a presidente e as forças que a apoiam, deixando-a isolada. Por isso ela ainda medita.

Fonte: Tribuna da Internet

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

BARBOSA, O APOSENTADO


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Escrito por João Gualberto Jr.   
Seg, 09 de Junho de 2014 08:42
O país foi surpreendido na semana passada com a decisão de Joaquim Barbosa de pendurar a toga. O furo foi do presidente do Senado, Renan Calheiros. Que ironia! O senador, não desautorizado, deu com a língua nos dentes para a imprensa logo depois de ter sido comunicado pelo ministro pessoalmente.

Apesar das especulações que surgiram – a doença na coluna vertebral sendo a mais citada –, o presidente do Supremo só fez desconversar sobre os motivos da aposentadoria.
Disse que a expectativa é com a Copa do Mundo e que o futuro está aberto. Tentou comprar ingresso para assistir aos jogos do Brasil, mas não conseguiu. Vai ver apenas Portugal e Gana, no Mané Garrincha, cuja entrada comprou. A seleção brasileira, vai acompanhar de casa, pela TV.
Barbosa tem preferido não sair às ruas há uns dois anos. Quem assegura é o chefe de gabinete, Sílvio Albuquerque Silva, inconfidente como Renan. O assessor contou que o ministro era achincalhado por torcedores do PT em ambientes públicos e chegou a ser ameaçado de morte. Também teria recebido telefonemas em casa com o mesmo teor. O motivo foi o tratamento dado aos réus do mensalão. Surpreende a reação? Não, embora absurda.
COMPORTAMENTO EXACERBADO
Há exatamente três meses, esta coluna trouxe algumas observações sobre o comportamento de Barbosa, tantas vezes exacerbado. Por ter criticado publicamente a decisão de colegas, lamentado o resultado de julgamentos pelo pleno e destratado magistrados, advogados e jornalistas, argumentou-se que ele não demonstrava adequação ao posto que ocupa – e onde ficará até o fim do mês. O colunista acabou sendo criticado pelos leitores, que defenderam a atuação do ministro justiceiro.
Barbosa é assim, desperta paixões e os “sentimentos mais primitivos”. Quem polemiza raramente recebe tratamento neutro: é ame-o ou odeie-o.
Fosse o sujeito mais cordato e sereno da face da Justiça, ele já teria feito história por ser o primeiro negro a presidir a Suprema Corte do Brasil, um país que preserva o racismo mais rasteiro e subliminar, talvez por isso, o mais resistente. Menino pobre de Paracatu, de família numerosa, venceu na vida por mérito e esforço próprios.
SEU LEGADO
Mas o legado de sua passagem de 11 anos pelo STF vai além da mera presença. Uma demonstração: quando seria possível imaginar que uma máscara representando um integrante do Supremo fosse a mais procurada do Carnaval? O povo descobriu Barbosa e, por tabela, em alguma medida, tomou conhecimento das instituições e do funcionamento da Justiça brasileira. No período em que o Supremo foi “mais fecundo”, em suas próprias palavras, foi ele o protagonista, despertando amores e ódios.
O ministro ainda teria o dobro do tempo percorrido na Corte para se aposentar compulsoriamente. A saúde, as ameaças, o cansaço e a exposição precipitaram a saída. Mas idade e capital Barbosa tem de sobra para voltar aos holofotes. Desde já, bem-vindo à política, doutor.
A esperança deste colunista é que o senhor utilize seu patrimônio para militar em favor de uma causa enorme da qual já é um símbolo: a redução da desigualdade entre os brasileiros. (transcrito de O Tempo)
Fonte: Tribuna da Internet





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quinta-feira, 12 de junho de 2014

PSDB ACUSA DILMA DE TENTAR "FAZER MINEIRO DE BOBO"


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Escrito por O Tempo   
Seg, 09 de Junho de 2014 08:42
Pouco tempo depois de a presidente Dilma Rousseff (PT) deixar Belo Horizonte na tarde de domingo (8), o PSDB de Minas Gerais divulgou nota para dizer que as obras para a Copa anunciadas pela presidente “não têm recursos do governo federal, ao contrário do que ela dá a entender”.
O PSDB-MG, presidido pelo deputado federal Marcus Pestana e liderado pelo pré-candidato ao Planalto senador Aécio Neves, diz que Dilma, “mais uma vez, tenta fazer os mineiros de bobos, ao propagar que é a responsável pelas obras de mobilidade urbana na capital”.
A crítica tucana se deve ao fato de a presidente destacar sempre a parceria do governo federal nessas obras e ainda ter desdenhado das gestões do PSDB no Planalto entre 1995 e 2002, dizendo que não foram feitos investimentos em mobilidade como faz a sua gestão.
“Na verdade, essas obras estão sendo feitas com recursos próprios da prefeitura de Belo Horizonte e do governo do Estado. Os valores que a presidente diz que direciona para as obras vêm da Caixa Econômica Federal, na forma de empréstimos, que deverão ser quitados pela prefeitura, com juros.”
DINHEIRO DO METRÔ

Ao dizer que investe em mobilidade em parceria com a prefeitura de BH e também com o governo do Estado, a presidente aproveitou para cobrar do Executivo mineiro projetos para o metrô de Belo Horizonte.
Segundo Dilma, o dinheiro federal está disponível, dependendo apenas dos projetos.
O governo mineIro foi gerido pelo PSDB de 2003 até abril deste ano, quando o ex-governador Antonio Anastasia deixou o cargo para poder se candidatar ao Senado. Desde então, o Estado é governado por um aliado de Aécio, o governador Alberto Pinto Coelho (PP).
Na nota, os tucanos também confrontam a fala da presidente na cobrança que ela fez sobre o metrô de Belo Horizonte. “Desde 2003, o governo federal do PT promete fazer a expansão das linhas, mas nada acontece. Na impossibilidade de entregar o prometido, Dilma tenta empurrar o assunto para o governo estadual, eximindo-se de sua responsabilidade e do compromisso assumido reiteradas vezes.”
Fonte: Tribuna da Internet





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quarta-feira, 11 de junho de 2014

A PRÓPRIA TERRA ESTÁ TOMANDO CONSCIÊNCIA DE SUA ENFERMIDADES


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Escrito por Leonordo Boff   
Seg, 09 de Junho de 2014 08:42
Inegavelmente, vivemos uma crise dos fundamentos que sustentam nossa forma de habitar e organizar o planeta Terra e de tratar os bens e serviços da natureza. Na perspectiva atual, eles são totalmente equivocados, perigosos e ameaçadores do sistema vida e do sistema Terra. Temos que ir além.
Dois pais fundadores de nosso modo de ver o mundo, René Descartes e Francis Bacon, são seus principais formuladores. Viam a matéria como algo totalmente passivo e inerte. A mente existia exclusivamente nos seres humanos.
Logicamente, essa compreensão criou a ocasião para que se tratasse a Terra, a natureza e os seres vivos como coisas de que podíamos dispor ao bel-prazer. Na base do processo industrialista selvagem está essa compreensão que persiste ainda nos dias de hoje.
As coisas, no entanto, não são bem assim. Tudo mudou quando Einstein mostrou que a matéria é um campo densíssimo de interações; mais ainda, ela, de fato, nem existe no sentido comum da palavra: é energia altamente condensada.
OUTRAS GALÁXIAS
Em 1924, Edwin Hubble, com seu telescópio no monte Wilson, no sul da Califórnia, descobriu que não há apenas a nossa galáxia, a Via Láctea, mas centenas delas. Notou, curiosamente, que elas estão se expandindo e se afastando uma das outras com velocidades inimagináveis. Tal verificação levou os cientistas a imaginarem que o universo observável era muito menor; um eco ínfimo do Big Bang pode ser ainda identificado, permitindo a datação do evento, ocorrido há 13,7 bilhões de anos.
Mas uma das maiores contribuições que vêm desmantelando o velho olhar sobre a Terra e a natureza vem do prêmio Nobel de química Ilya Prigogine. Ele deixou para trás a concepção da matéria como algo inerte e passivo e demonstrou, experimentalmente, que elementos químicos, colocados sob certas condições, podem organizar-se a si próprios sob complexos padrões que requerem a coordenação de trilhões de moléculas. Nem sequer existem códigos genéticos que guiem suas ações. A dinâmica de sua auto-organização é intrínseca, como aquela do universo, e articula todas as interações.
UNIVERSO AUTOCRIATIVO
O universo é penetrado por um dinamismo autocriativo e auto-organizativo que estrutura as galáxias, as estrelas e os planetas. De tempos em tempos, ocorrem emergências de novas complexidades que fazem aparecer, por exemplo, a vida consciente e humana.
Toda essa dinâmica cósmica tem seus tempos próprios. Especialmente os organismos vivos têm seus tempos biológicos próprios, um para os micro-organismos, outro para as florestas, outro para os animais, outro para os oceanos e, por fim, outro para cada ser humano. Completado seu tempo, ele parte.
Que fizemos nós modernamente para gestar a crise atual? Inventamos o tempo mecânico e sempre igual dos relógios. Ele comanda a vida e todo o processo produtivo, não tomando em conta os demais tempos.
Ao não concedermos um sábado, biblicamente falando, para a Terra descansar, nós a extenuamos, a mutilamos e a deixamos adoecer quase mortalmente, destruindo as condições de nossa própria subsistência.
Neste momento, estamos vivendo um tempo em que a própria Terra está tomando consciência de sua enfermidade. O aquecimento global sinaliza que ela vai entrar em outro tempo. Se continuarmos a feri-la e não a ajudarmos a se estabilizar em outro tempo, podemos começar a contar as décadas que inaugurarão a tribulação da desolação.
Fonte: Tribuna da Internet





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