terça-feira, 24 de março de 2015

MAÇONARIA: PRIMEIRO SUPREMO CONSELHO DO REAA


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Escrito por Hercule Spoladore   
Seg, 23 de Março de 2015 17:00
As prováveis origens dos Graus Superiores na França estão ligadas a vários fatos e entre eles, o primeiro, cita-se o famoso Discurso escrito em 1737, por André Michel Ramsay escocês de nascimento, iniciado na Inglaterra, documento este, jamais apresentado em Lojas, por ter sido proibido pelo cardeal de Fleury (André Hercule de Fleury) que era ministro forte de Luiz XV, documento, onde Ramsay, atribuiria uma origem nobre à Ordem tentando encobrir as raízes da Maçonaria nos pedreiros livres e dando à mesma um sentido cavalheiresco, alem de insinuar uma reforma geral na Ordem.
O texto foi publicado no ano seguinte, de certa forma foi um incentivo posterior à criação de graus acima do grau 03. Em 1743, teriam sido criados os graus: Mestre Escocês, Noviço e Cavaleiro do Templo. Posteriormente houve a criação do Capítulo de Clermont, em 24 11.1754 também conhecido como o Colégio dos Jesuítas que pretendia praticar Altos Graus, criando sete graus, entidade de curta existência.
A febre de Altos Graus não parou por aí. Em 1758 ocorreu a fundação do Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente, Grande e Soberana Loja Escocesa de São João de Jerusalém ao qual juntou-se os remanescentes do Capítulo de Clermont estabelecendo-se um sistema de Altos Graus, chegando ao número de 25, chamados inicialmente de Graus de Perfeição depois constituindo-se em um Rito de Perfeição ou Rito de Heredon.
Em 20.09.1762 este Conselho aprovou uma carta chamada Constituição de Bordeaux à qual anexaram posteriormente adendos chamados Institutos, Estatutos, Regulamentos e instruções suplementares. Estes graus foram trazidos às Américas, e aqui tiveram uma boa aceitação No final do século XVIII a Maçonaria na França estava desorganizada em função da Revolução Francesa e também nas suas colônias como a das Antilhas a de São Domingos (hoje Haití) e outras. Entretanto, cerca de trinta anos antes, Irmãos franceses passaram por estas colônias encarregados de divulgar a maçonaria escocesa que teve origem na França.
Entre eles, o mais importante foi Etienne Morin que tinha uma Carta Patente de Grande Inspetor, fornecida pelo Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente em 27.08 l761. Morin encontrou na América uma Maçonaria já mais ou menos estruturada. Ele, teria outorgado o título de Grande Inspetor Geral Adjunto a 16 Irmãos e entre eles ao Irmão Hyman Long, o qual teria substabelecido o mesmo título à inúmeros Irmãos. Entre os maçons que residiam em São Domingos, estavam o Conde Alexandre François de Grasse Tilly,filho de herói que lutou pela independência americana e seu sogro Jean Baptiste Marie Delahogue, pessoa de grande influência na colônia. Lá pelos idos de 1793 ambos mudaram-se para os EE.UU., fugidos, após uma revolta de escravos, indo residir na Carolina do Sul em Charleston, onde posteriormente fundaram uma Loja em l795 “La Candeur” nº12 (A Candura) composta só de católicos franceses, a qual foi instalada em 24.05.1796 sendo Delahogue o seu primeiro Venerável. Em Charleston, já existiam outras onze lojas filiadas à Grande Loja da Carolina do Sul.
Logo depois os dois receberam um título de Inspetor Geral Adjunto fornecido pelo Irmão Hyman Long que fundara em 13.03.1796, um Consistório de Príncipes do Real Segredo e em 13.01.1797 um Grande e Sublime Conselho de Príncipes do Real Segredo. Refere Albert Pike que desde esta época, Grasse Tilly já alimentava a idéia de fundar uma Entidade que viria a ser o Supremo Conselho e acrescentar mais graus aos 25 já existentes. Ele e Delahogue, ambos franceses, foram atraídos a formarem parceria com outros Irmãos que trabalhavam no mesmo sentido, aliás, todos estrangeiros com exceção de James Moultrie que era o único americano. Os outros eram: Frederich Dalcho, inglês; Abrahan Alexander, inglês; Jonh Mitchel, irlandês; Thomas Bartholomew Bowen, irlandês; Moses Clava Levy, polonês; Emmanuel De La Motta, dinamarquês e Israel De Lieben, checoslovaco.
Grupo de homens capazes e inteligentes, que sabiam o que queriam. Como seria possível um grupo de estrangeiros fundar algo mais que uma loja maçônica em um país estranho? Pois é, eles fundaram um Supremo Conselho e um Rito. Diz-se que Grasse Tilly já em l797 teria assinado um documento como Grande Soberano Comendador e Delahogue como Lugar-Tenente através de um suposto Supremo Conselho numa possessão francesa nas Índias Ocidentais. Não há comprovação, e tal fato é também é contestado por vários autores. Acresça-se que em 1800 existiam cerca de dez lojas simbólicas em Charleston e três Corpos de Graus Superiores do Rito Francês a saber: uma Loja de Perfeição ( 4º ao l4º graus), um Grande Conselho de Príncipes de Jerusalém ( l5º e l6º graus) e um Grande Conselho de Sublimes Príncipes do Real Segredo ( l7º ao 25º graus) sabendo-se que, estes Corpos não iam além do grau 25, e estavam divididos em sete classes.
A situação foi evoluindo de tal forma que dias antes da fundação do l.º Supremo Conselho do Mundo, isto em 24.05.l801, formou-se um Conselho de Soberanos Grandes Inspetores, em Charleston, quando Grasse Tilly assinou patentes tornando todos os Irmãos mencionados, Grandes Inspetores Gerais, tendo outorgado o grau 33 para todos os irmãos citados os quais seriam considerados como fundadores do 1º Supremo Conselho. Os principais fundadores teriam sido Jonh Mitchel que foi o l.º Soberano Comendador do novel Supremo Conselho e Frederick Dalcho. Quanto a Grasse Tilly, ele próprio não assinou o documento oficial de fundação do l.º Supremo Conselho do Mundo (3l.05.1801). É lógico que o grupo providenciou modificações em cima do sistema de 25 graus do Rito de Heredon, estabelecidos em l758 pelo Conselho de Imperadores do Ocidente e do Oriente na França, e pela Constituição de l762 de Bordeaux, acrescentando mais oito graus e remanejando as sete classes de graus. Todavia, este Supremo Conselho trabalhou nos Graus Superiores do 4º ao 33º não se envolvendo com os três primeiros graus simbólicos.
Como sabiam de antemão que não teriam crédito no mundo maçônico pois eram apenas dez Irmãos quase todos estrangeiros, inventaram uma estória que apesar de estar muito bem esclarecida atualmente por todos os maçons estudiosos, ainda a maioria dos Grandes Inspetores Gerais atuais repetem-na freqüentemente como sendo uma história verdadeira, tendo o aval e mesmo a afirmação dos Soberanos Comendadores das maiorias dos Supremos Conselhos existentes no mundo e ainda constando dos rituais dos Altos Graus o personagem que abordaremos como o sendo o principal criador do Rito, sem no entanto ter sido.
Interessante que atualmente a maioria dos Irmãos pertencentes aos Graus Superiores crêem nesta estória achando que os fatos tenham realmente acontecido assim. Uma vez criado este Corpo, considerado o 1º Supremo Conselho-Mãe do Mundo, a sua organização levou cerca de um ano e meio para se estruturar, sendo que no final ano de l802, enviou uma circular redigida por Dalcho a todas Lojas e demais Corpos Maçônicos de Graus Superiores do mundo, informando que haviam acrescentado mais oito graus ao sistema até então conhecido, e que este Supremo Conselho havia sido organizado de conformidade com uma Constituição datada de 0l.05.1786 compilada e aprovada pelo Rei Frederico IIº, o Grande, da Prussia, fazendo o mundo maçônico crer que este Supremo Conselho existisse desde aquela data.
Esta afirmação, evidentemente daria credibilidade ao novo sistema o que realmente aconteceu, uma vez que Frederico da Prussia, além de Irmão, era uma figura política que inspirava confiança, pois era muito respeitado, já que forças mercenárias prussianas lutaram pela Independência dos EE.UU.
Situações bem ao gosto do patriota povo americano. Importante o discurso pronunciado pelo Grande Soberano Comendador do Supremo Conselho da França mais antigo da Europa, o Irmão Hubert Greven, em Florianópolis-SC em l4.09.2000 por ocasião da abertura da XXI Assembléia Geral Ordinária da Excelsa Congregação de Supremos Conselhos do REEA do Brasil. “A França é o berço do Rito Escocês Antigo e Aceito.
Os Altos Graus que o caracterizam nasceram lá em l743 com o grau de Mestre Escocês, assim chamado em homenagem aos maçons operativos da Escócia que tinham conservado os usos e tradições dos construtores “góticos” tornados obsoletos na Inglaterra e na França. No dia 27 de agosto de l761, a Grande Loja entregou a Etienne Morin, a caminho das Antilhas, Cartas Patentes de Grande Inspetor para as lojas francesas da América, que lhe davam poder para espalhar os “Sublimes Graus”.
Ele os organizou num Rito de Perfeição regido por Constituições que se davam por ter sido elaboradas em 1762 em Bordeaux e tendo como Padrinho, Frederico II, rei da Prussia. O Rito foi propagado nas colônias inglesas da América por “Deputy Inspectors General” de seu 25º e último grau ( Príncipe do Real Segredo), tendo seus poderes de Morin. Progressivamente , o Rito foi organizado segundo uma hierarquia de 33 graus. É desta forma que o Coronel Mitchel recebeu em Charleston, Carolina do Sul, comunicação de seu 33º grau e das Grandes Constituições deste grau datadas do dia 01.05.1786 e atribuídas miticamente sem dúvidas ao grande Frederico. Mitchel estabeleceu no dia 31.05.1801, o Supremo Conselho do 33º grau para os Estados Unidos da América que, no dia 21.02.l802 completava-se no número estatutário de nove membros cooptando dois(Deputy Inspectors General) franceses refugiados de São Domingos após a revolta dos escravos, o conde de Grasse Tilly e seu sogro Delahogue. O Rito Escocês Aceito e Aceito estava definitivamente organizado. Recebeu estes qualificativos porque o Supremo Conselho de Charleston admitia indiferentemente, nos graus Escoceses Mestres Maçons das duas Grandes Lojas rivais que existiam então na Carolina do Sul como na Inglaterra a Grande Loja dos Antigos Maçons de York e a Grande Loja dos Livres e Aceitos Maçons (modernos)”.
Entretanto, se formos fazer uma analise racional veremos que o nome do Rei Frederico IIº foi usado indevidamente e ainda se utilizaram de situações inventadas para dar corpo à estória. O original autêntico da tal Constituição de l786 nunca apareceu. Ela teria sido elaborada por Dalcho em sua maior parte com participação de Grasse Tilly, Delahogue e Mitchel e atribuída à Frederico da Prussia.
No preâmbulo da Constituição consta que “feito e aprovado no Supremo Conselho do grau 33 devida e legalmente estabelecido e congregado no Grande Oriente de Berlim em 0l.05.1786. Á este ato compareceu Sua Majestade Frederico Rei da Prussia, Soberano Comendador”. - Sabe-se que naquele ano de 1786 não se reuniu nenhum “Supremo Conselho” em Berlim. - Frederico IIº em 1786 estava semicomatoso há sete meses acamado, portador de doença crônica degenerativa alem de gota e hidropisia e faleceria em l7.08.l786. - Frederico IIº havia sido Grão-Mestre até l747 da Grande Loja “Três Globos Terrestres”. A partir daí praticamente cessaram suas atividades maçônicas. Em l766 quando a sua Grande Loja resolveu adotar o Rito da “Estrita Observância” ele retirou o título de protetor da mesma, da qual o era desde l740. - Não lhe eram simpáticos os Altos Graus. Considerava-os “ocos para vaidosos”. - Não definia a aludida Constituição atribuída ao Rei Frederico IIº a regulamentação dos graus intermediários, apenas criava o grau 33. Enfim, uma série de outras razões provam que Frederico IIº nada teve a ver com o 1º Supremo Conselho do Mundo criado em 1801. Arranjaram-lhe uma paternidade fictícia.
Frederick Dalcho conhecia a rivalidade existente entre o Sul e Norte dos EE.UU. Elaborando uma Constituição dando a autoria da mesma à Frederico, previu a possibilidade do aparecimento um segundo Supremo Conselho naquele país, e, se caso isso viesse acontecer este o 2º Supremo Conselho americano poderia seguir a “Constituição” de Frederico sem criar outra em função da referida rivalidade. Ficaria muito mais fácil aceitar a “autoridade” de Frederico que admitir uma constituição feita pelos seus Irmãos do Sul. Enfocaremos outro aspecto do assunto. Quantas lendas somos obrigados a aceitar na Ordem? A Maçonaria é pródiga em lendas mitos e controvérsias.
Temos a de Hiran, temos no Brasil a grande farsa do 20 de agosto que não conseguiu ser lenda, já que felizmente parece que não vingou, mas ainda existem muitos palestrantes e até Grão-Mestres repetindo o mesmo erro por esse Brasil afora, temos lendas em quase todos os Ritos, inclusive no Trabalho de Emulação (sistema inglês) a lenda do Príncipe Edwin só para citar algumas. Existem dezenas. Então transformemos a estória de Dalcho, Mitchel & Cia. em uma lenda. Ora, todos sabemos que o Rito Escocês Antigo e Aceito, salvo as controvérsias que existem em seu seio, os outros Ritos também as têm, é um sistema sincrético de maçonaria, que é vencedor e se expandiu. É organizado, tem uma linha de conduta, mesmo sendo eclético, tem metas, é universal e embora que minoritário com relação ao sistema inglês está firme, desempenhando seu papel na história da Maçonaria mundial. Quer dizer, o Rito Escocês Antigo e Aceito é uma realidade incontéste.
Vamos aceitar que Dalcho, Grasse Tilly, Delahogue, Mitchel talvez “quiseram apenas homenagear” ou quem sabe, usar a credibilidade que o Rei Frederico aparentementetinha, já que tinha sido Maçom, que enquanto ativo foi lúcido, mesmo não gostando dos Altos Graus, que era simpático à causa da Independência americana. Estão ai as qualidades do herói, que acabam com o tempo constituindo-se em um mito. E para se construir um mito, sabemos que as lendas não tem compromisso com a realidade. Elas valem pela mensagens que transmitem. E a de Frederico IIº preenche estes requisitos em termos americanos e mundiais.
Então aceitemo-la como uma lenda. Fica até simpático para o 1º Supremo Conselho do Mundo ter a sua lenda de origem, já que a quase maioria dos outros Ritos e outros Corpos de Altos Graus também as têm. No entanto, se tentarmos realizar uma revisão histórica e consertar esta distorção a confusão será muito maior. Se deu certo, deixemo-lo como está, e que Frederico seja uma lenda, um mito.
Afinal, nenhuma civilização, entidade ou organização sobreviverá se não tiver um mito próprio. Não se sabe ao certo porque criaram 33 graus. Alguns autores acham que Charleston está na latitude de 32 graus, 46 minutos e 33 segundos, vindo daí o número enigmático 33. Porem, é discutível esta explicação. Quanto ao Grande Selo escolhido, a águia bicéfala símbolo originado na cidade de Lagash na antiga Samária é um dos símbolos mais antigos do mundo, e já era usado desde l759 pelo Conselho dos Imperadores do Oriente e do Ocidente.
Quem a escolheu para um dos símbolos do Supremo Conselho foi Frederick Dalcho. A águia está em pleno vôo tendo na garra uma espada desembainhada e abaixo, solto, um listél, onde está escrito Deus Meunque Jus ( Deus e o meu Direito ) O segundo dístico que está acima das cabeças da águia Ordo Ab Chao ( Ordem no Caos). Grasse Tilly, apesar de não ter assinado o documento como fundador do 1º Supremo Conselho do Mundo, foi um dos seus criadores e estabeleceu um Supremo Conselho para as Ilhas Francesas da América no Cabo Francês - São Domingos – em 1802 e criou outro em Kingstone na Jamaica em 1803.
A partir daí voltou a França, fundando no dia 17.10.1804 em Paris, o primeiro Supremo Conselho do Grau 33 da Europa. Ainda estabeleceria em 1805 o Supremo Conselho da Itália, em 1811 o da Espanha e o dos Países Baixos em 1817. Conforme Dalcho havia previsto realmente houve problemas com os maçons do Norte. Em Nova York vários grupos se desentendiam.
O Irmão Joseph Cernau instalou um Sublime Consistório dos Príncipes do Real Segredo em 28.10. 1807 depois transformando este Corpo em “Supremo Conselho”,ir regular, por sua conta e risco. Em 1813 existiam em Nova York, cerca de cinco Altos Corpos Maçônicos, todos beligerantes entre si. Emmanuel de La Mota, um dos fundadores do 1º Supremo Conselho do Mundo (hoje em Washington DC) estando em Nova York para tratamento de saúde, viu como estavam as coisas por lá e, habilmente elevou vários Irmãos tidos como irregulares ao verdadeiro grau 33 e com estes Grandes Inspetores Gerais regulares fundou um segundo Supremo no Estados Unidos assim denominado Supremo Conselho dos Soberanos Grandes Inspetores Gerais do Grau 33 do Distrito Norte dos Estados Unidos,( hoje em Lexington MA) em 05.08.1813. Logo de início conseguiu trazer para este novo grêmio, aliás, regular, todas as facções em litígio, menos a de Cernau, a qual em 21.09.1813 foi considerada ilegal e irregular. As refregas não parariam por ai, até que em l828 houve uma divisão territorial entre ambos Supremos Conselhos americanos, mas não o término definitivo dos desentendimentos entre os dois Supremos Conselhos, o qual durou ainda muitos anos.
Hercule Spoladore LOJA DE PESQUISAS MAÇÔNICAS “BRASIL” Bibliografia Castellani, José “O Rito Escocês Antigo e Aceito – Doutrina e Prática Editora Maçônica “A Trolha” Ltda – Londrina – l988.

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